Alguns pensamentos sobre “Star Wars: The Last Jedi”:

Desde que vi o novo filme da “Guerra das Estrelas” que tenho pensado em como falar do filme, especialmente no que toca a certas incompreensões ou críticas que tenho visto (isto, “lá fora”) e com as quais me tenho debatido. E porque não escrever sobre elas, mesmo que seja apenas por aqui?

Antes de mais, gostaria de sublinhar que a missão do realizador Rian Johnson (gostei tanto do “Brick” como do “Looper”) era totalmente diferente da missão do J.J. Abrams. Enquanto que o Abrams tinha em mãos a difícil tarefa de agradar a todos os quadrantes de fãs e fazer esquecer (um pouco d)o sabor amargo das Prequelas. E se Abrams tinha de voltar a recapturar o sentimento, sem dúvida, nostálgico de como-foi-ver-a-Guerra-das-Estrelas-pela-primeira-vez, Johnson tinha como missão desbravar novos caminhos. Se isso era totalmente possível? Não, no sentido em que um corte radical com todos os fatores que fazem de “Star Wars”, bom, “Star Wars”, há certas coisas que não iriam mudar ou ser erradicadas.

[aqui entro em *spoilers*]

Nomeadamente, continuaria a haver o entidade da First Order, continuariam a existir Rebeldes/Resistentes, continuaria a haver uma personagem que abraça a Luz da Força e uma personagem que abraça o seu Lado Negro.

Contudo, e este é o meu argumento, Johnson conseguiu construir um filme que não só tem múltiplos momentos de genuína surpresa e consegue tirar o tapete por baixo dos pés do espectador, como consegue abrir de par em par as portas das possibilidades: fora as normais expectativas atribuídas a um “blockbuster” normal, não faço absolutamente nenhuma ideia do que irá acontecer no próximo capítulo. Não há nenhuma pergunta à qual se tenha de responder, nenhuma missão que se tenha de retomar. Pode haver um salto no tempo, pode começar pouco tempo a seguir. As possibilidades são incontáveis e isso é emocionante.

Relativamente aos temas, tem havido algumas questões, sobretudo na imprensa americana (ou no “Film Twitter”, se preferirem) sobre como “The Last Jedi” (TLJ, para encurtar) é um filme que quer cortar inteiramente com o passado – isto devido à fala de Kylo Ren/Ben Solo como matar, literalmente, o passado. Contudo, creio que essa é uma visão simplista do filme, e a posição re: ao passado do filme está mais acentuada nas ações da Rey do que nas falas do Kylo: abraçar o passado, aceitar que ele nos falhou nas alturas em que nos falhou, mas pegar nas lições que nos deu para melhor agir no futuro. Isto, parece-me, bastante claro na forma como Yoda permite que a Árvore Jedi arda, ao mesmo tempo que diz a Luke que a Rey tem “tudo o que precisa” – os livros podiam ser maio aborrecidos, mas ela levou-os com ela e esse conhecimento não ficará perdido [o Yoda sempre foi tramado].

Poe / Holdo / Leia
Este filme é, ainda mais marcadamente do que o “Force Awakens”, um filme que insiste em passar das personagens-da-trilogia-original para as personagens que são da nova geração. Isso implica que há, para além de uma mudança de guarda, um arco de personagem que leva a considerar novas formas de liderança. Poe Dameron, como qualquer herói de “blockbuster”, está mais preocupado com fazer coisas explodir e questionar os seus superiores do que com arranjar planos que sejam mais cientes da noção de “a longo prazo”. E é essa a lição que ele tem de aprender. É essa a dinâmica que tem com Holdo (Space Dern!), uma líder que aprecia a sua determinação mas que o faz ver que há outras formas de salvar o dia. O facto de ela própria tem nas mãos uma das sequências mais inesperadas e “badass” da história desta saga – a Manobra de Holdo fica para a história – é apenas a cereja no topo do bolo e o momento unificador das três “plotlines” deste filme.

Canto Bight / Finn / Rose
Muitas pessoas se queixam, e não posso dizer que não compreenda, que a sequência de Canto Bight parece inessencial ao filme. Penso que isso se pode dever a primeiras impressões: ao ver o filme pela primeira vez, estamos (eu estava) mais preocupados com a Plotline A (a última de que vou falar); mas estes personagens oferecem algo importante, aquilo a que os americanos chamam de “stakes”, no fundo, as razões pelas quais se está a lutar, “in the first place”. Neste caso, Rose Tico funciona (e é) uma personagem que está ligada à lição que Finn aprende, mas que é, ela própria, uma personagem extremamente bonita. Os seus ideias, a maneira como contextualiza a luta entre First Order/Resistência mostra o porquê de toda esta guerra nas estrelas (desculpem, era demasiado forte). Canto Bight é o sítion onde vemos quem lucra com a guerra e quem são os que mais sofrem com o domínio opressor dos que a estão a ganhar. Isto, inevitavelmente, afecta o Finn que até aqui se preocupava não com ideias, mas com pessoas. Se “Force Awakens” o vê a preocupar-se com alguém que não ele próprio (Rey), TLJ vê-o a ligar-se a uma causa maior do que ele próprio e a compreender (ele torna-se “rebel scum”, sendo “rebel” a palavra essencial) a melhor forma de lutar contra aquilo a que se dispõe lutar.

[Adenda: DJ (Benecio del Toro) percebe os planos da Resistência porque ouve o aviso de Poe Dameron quando Finn, Rose e DJ estão a caminho da First Order, é assim que ele tem a informação que usa para regatear pela sua vida e libertação.]

Luke Skywalker / Rey / Kylo Ren
Plotline A! Primeira preocupação de Johnson: porque raio é que Luke está numa ilha longínqua e incomunicável? Como é que a Leia não consegue (como sabemos, pela trilogia original, que consegue) comunicar com o irmão? A resposta é simples e inevitável: incapaz de viver com o seu falhanço enquanto Mestre Jedi, Luke (como Obi-Wan e Yoda antes dele) isola-se não só fisicamente como mentalmente: ele desliga a sua comunicação com a Força. Até que chega alguém que o confronta na sua solidão e o faz ver a necessidade da Lenda do Jedi Luke Skywalker. Luke culpa a sua própria húbris e a sua confiança na sua própria lenda e isso cria um momento trágico em que uma falha humana cria um abismo entre si e o seu sobrinho, e a vergonha de enfrentar a irmã e quem acredita nele. A solução parece-lhe ser acabar com a Ordem Jedi, que tem causado mais problemas do que os que resolve. Até que percebe que virar as costas ao passado, que “matar” o passado não é resposta. É absolutamente necessário aprender com o passado para que os seus erros sirvam de lições. É quando volta a comunicar com Leia, que é confrontado por Rey e ensinado, uma última vez, por Yoda que Luke percebe que um últimogesto lendário seu é exactamente o único caminho que interessa.

A sua *meditação extrema*que permite que se acenda uma nova faísca de esperança (a Lendas têm uma função: inspirar) e que mostre, em todo o seu esplendor, o seu real poder e comando da Força. Não poderia ter desejado um final mais bonito e adequado, um que escolhe significativamente o caminho da não-violência como resposta à violência extrema de Kylo. Que ele veja novamente os dois sóis e se una com a Força é, novamente, a cereja no topo do bolo [“no one’s ever really gone”].

Rey – o yin do yang de Kylo – não deixa que este a defina, nem que o seu passado a defina. De todos, é a única personagem que não muda na sua determinada procura por fazer o bem no mundo. Leva os livros porque não está disposta a que o conhecimento Jedi caia no esquecimento. Tenta salvar Kylo porque vê algo bom nele. Recusa o seu pedido porque mais do que a resposta da Luz da Força (algo que Snoke [personagem que não importa] diz para a diminuir, como tenta diminuir Kylo), mas a sua personificação. Uma pessoa que não vem de família nenhuma em especial – como Luke, aliás, na trilogia original, antes das Prequelas – mas tem em si a capacidade de mudar o mundo. Um ideia verdadeiramente Tolkien-esca que deveria agradar a qualquer fã que já imaginou brandir um sabre de luz.

Adam Driver que se mantém como ponto alto dos filmes, é excelente como Kylo Ren/Ben Solo. Toda a angústia, medo, raiva, insegurança da personagem esta visível na sua cara, complexo e ao mesmo tempo infantil, rebelde e retrógrado em igual parte. Mas não tão manchado pelo Lado Negro que mate a mãe. Confrontando Luke, todos os seus planos caiem por terra. Diz-lhe Luke Skywalker: “Amazing. Every word of what you just said was wrong. The Rebellion is reborn today. The war is just beginning. And I will not be the last Jedi.”

[Adenda: Tese do filme: “We’re going to win this war, not by fighting what we hate, but saving what we love”. Como não gostar de um sentimento assim?]

 

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